Ele faz um ziguezague para poder estacionar a moto entre dois carros no estacionamento do shopping. Legal, arranhou o carro ao lado… Tudo bem, não tem ninguém por perto, o dono nem vai saber quem foi. Dá um bocejo e se espreguiça todo. Gostaria de estar em seu quarto agora, dormindo! Mas tem o emprego novo. Ah, trabalhar é um problema para ele… Mas se ele quer ter dinheiro no bolso precisa fazer certos sacrifícios.
Abre a porta da joalheria e sorri para as vendedoras. Ricardo precisa pelo menos fingir satisfação…
__Bom dia! – ele diz se aproximando de uma vendedora – O Osvaldo já chegou?
__Bom dia! – a moça responde toda sorridente – Sim, ele tá na sala dele.
__Pode avisar que Ricardo Toledo Rivera quer falar com ele?
__Claro. Um minutinho. – ela pega o telefone e fala rapidamente com o chefe – Tudo bem, pode entrar. A sala dele é no final do corredor.
__Obrigado, querida.
A joalheria H Siegel é uma das maiores do país. E dizer que a família de Ricardo já foi concorrente dos Siegel!… Tempo das “vacas gordas”. Ricardo sente uma revolta imensa só de pensar que já teve muito dinheiro, que já frequentou a alta sociedade, que já fez muitas viagens à Europa… Hoje ele não tem mais nada. Saber disso é mais revoltante ainda! Aquela vida boa que ele levava quando era mais jovem acabou. Dos milhões que a família Toledo tinha não sobrou nem um centavo para contar a estória!
A poderosa empresa Ibérica Joalherias, patrimônio que sua família levou anos para construir, foi consumida pelas dívidas em pouco tempo… Num piscar de olhos estavam pobres. E continuam pobres. Ricardo fecha os olhos como querendo apagar da mente esses pensamentos ruins enquanto anda pelo corredor da loja. De repente, ele esbarra em alguém. Abre os olhos assustado e vê a mulher parada na sua frente, com cara de desespero. No chão, uma bandeja e xícaras quebradas… Ricardo olha para a camisa. Toda suja de café e sabe-se lá mais o quê!
__Mas que droga! Minha camisa novinha! – ele reclama.
__Desculpa, moço! O senhor surgiu do nada…
__Do nada? Você é cega, garota? Eu tô bem na sua frente e você diz que eu surgi do nada! Minha camisa nova ficou imunda!
__Desculpa, por favor…! Foi sem querer… – ela pega um guardanapo e se aproxima dele – Deixa eu limpar pro senhor…
__Não precisa! – Ricardo se afasta irritadíssimo – Pode deixar que eu limpo depois.
__Olha, me desculpa mesmo!… Eu não vi o senhor, juro! – ela se abaixa e começa a catar os cacos das xícaras no chão – O café do chefe… Ele vai ficar uma fera!
__Você trabalha aqui, suponho. – ele olha em volta para ter certeza de que ninguém viu esse “mico”…
__Trabalho. O seu Osvaldo é o chefe e ele…
__Não vai gostar nada de saber disso!
__Não, por favor! Não conta prá ele, por favor! Eu sei que me atrapalhei um pouco, mas… Ele não precisa saber disso!
__É o que eu devia fazer. Mas não vou perder meu tempo com essa bobagem. – Ricardo sorri – Não vou te dedurar.
__Obrigada, moço.