27 de abr. de 2010

Capítulo 12

Todo mundo tem problema. Os mais variados problemas, de dimensões variadas… Ninguém é perfeito! Rodrigo Toledo Rivera se meteu numa grande enrascada e provavelmente vai se meter em mais!… Não que Ricardo seja corretíssimo, com uma moral imaculada… Mas também não seria capaz de entrar numa “canoa furada” como essa que seu irmão entrou! Por isso ele não quer nem se aprofundar muito nisso, não quer tomar parte nessa maluquice! O que ele quer realmente é sair dessa vida de pobreza e voltar a ter sua a vida de antes…! Só não sabe como. Ainda.

Ricardo entra no quarto e se joga na cama. De repente, uma onda de frustração toma conta dele. Como deixou que as coisas chegassem a esse ponto? Porque não tomou uma atitude logo no começo dessa maluquice toda?! Tinha de ser forte e lutar para conseguir se reerguer! Ao contrário disso ele não tomou providência nenhuma, se acomodou!… Não era para ser assim. Onde está o cara seguro de si, todo confiante?… Escondido atrás da pobreza e da humilhação… Ele perdeu um pouco do amor próprio – se é que tinha amor próprio –por conta da situação financeira da família.

Ele suspira num desalento só. Não dá para voltar o tempo. Mas o tempo que ainda está por vir ele pode modificar. E a seu favor. Talvez seja a hora de arrumar um emprego melhor. Ricardo pega o jornal desanimado. Quem sabe não encontra alguma coisa?… Abre a página de classificados e passa os olhos pelos anúncios de emprego. Motorista particular. Esse parece bom…

Ainda sem pistas o caso de assalto a hotel de luxo na Zona Sul.”

__Meu Deus… – Ricardo quase perde a voz ao ler a notícia…!

A polícia não tem nenhuma pista dos bandidos que roubaram hóspedes de um hotel na Zona Sul do Rio. O delegado disse ontem que alguns hóspedes foram depor e fizeram uma descrição de um dos assaltantes. Mas a polícia acredita que seja a quadrilha de Beto Bala, já que um dos hóspedes ouviu um dos bandidos falar este nome. O delegado disse ainda que mesmo não tendo pistas sobre o roubo ao hotel ou provas de que o assaltante esteja envolvido vai prendê-lo por conta de outros crimes que cometeu.”

__Meu Deus… Eu não acredito nisso! – Ricardo está horrorizado! – Não é possível que o idiota do Rodrigo tenha se envolvido com esse cara! – ele pula da cama – Esse sujeito é barra pesadíssima!

16 de abr. de 2010

Mais capítulo 11

__O sujeito me rendeu no estacionamento do hotel, queria que eu entregasse a chave  do carro… – fala Rodrigo muito calmo.

__Espera que eu caia nessa?… Conta outra, Rodrigo!

__Ele ameaçou me matar! Então eu disse: porque levar um pedaço se pode ter o bolo inteiro?… – diz Rodrigo como se contasse uma estória maravilhosa…

Ricardo cruza os braços, recostando-se no batente da porta.

__Tá de sacanagem comigo?!? Quer mesmo que eu acredite nessa lorota ridícula?!?

__O cara tava nervoso, ia me matar, caramba! Eu tinha que fazer alguma coisa prá salvar a minha pele!

__Porque não entregou a maldita chave do carro?

__Sei lá… – Rodrigo encolhe os ombros – Foi a primeira coisa que me ocorreu quando ele apontou a arma prá minha cabeça.

__Fez acordo com um assaltante?…

__Isso mesmo. Eu disse a ele que o hotel tá cheio de milionários e que conhecia alguns, sabia onde moravam…

__O quê??? Meu Deus, Rodrigo!… – ele está pasmo e indignado ao mesmo tempo.

__Dei a dica prá ele sim! Eu dei os endereços de alguns milionários… E não só dos que se hospedam no hotel, mas de alguns antigos conhecidos nossos. – a simplicidade com que ele fala é impressionante…!

__Eu não acredito… Você tá de brincadeira, só pode ser! Ninguém faz um acordo desses a menos que seja louco! – fala Ricardo ainda pasmo com a atitude do irmão.

__Era isso ou morrer! Eu sou muito novo prá morrer…! – tenta justificar Rodrigo – E depois, a idéia não foi tão maluca assim… Eu ganhei uma ótima comissão.

__Comissão? Esse dinheiro é…

__É uma mixaria perto do que eles tiraram dos ricaços! – diz Rodrigo como se tivesse sido injustiçado… – Eu merecia muito mais!

__Eu também acho! – diz Isadora.

Ricardo está chocado. Não deveria estar conhecendo a família que tem…! Mas está. Começa a imaginar a cena: o marginal ssendo convencido por Rodrigo a roubar os hóspedes do hotel… Dá para acreditar nisso?… Se fosse outra pessoa, outra família, ele até acharia absurdo… Mas em se tratando da família Toledo Rivera é bastante aceitável…

__Não quero saber mais nada. – ele diz – Prá mim já deu!

__Qual é, Ricardo! Vai bancar o moralista puritano agora? – fala Rodrigo.

__Esse dinheiro veio bem a calhar, filho! Vamos pagar os aluguéis atrasados e sair desse cortiço imundo! – o entusiasmo de Elena só não é maior do que a indignação de Ricardo…!

__Vocês piraram?!? Isso é dinheiro de roubo, caramba! Não tô querendo dar uma de moralista, mas pensem comigo… Vocês não acham que logo logo a polícia vai pegar esse cara?…

__Ricardo, qual é a tua?!

__E quando esse sujeito for preso vai entregar fácil quem deu a dica prá ele! E aí, você, irmãozinho, vai se ferrar…!

__Vira essa boca prá lá! – fala Guilherme, batendo na madeira – Ele não vai ser pego!

__É isso aí, pai! O cara simpatizou comigo, disse que eu sou “maneiro”! Ele é um cara esperto não vai ser pego!

Ricardo sacode a cabeça e sai da cozinha. Esta foi a cena mais bizarra que ele já presenciou na vida! Sim, sua família é chegada em bizarrices, mas essa sem dúvida foi a maior de todas!…

6 de abr. de 2010

Continuação do capítulo 11

Rodrigo dá um sorriso e encara o irmão.

__Eu tô me virando, Ricardo. Tô me virando porque eu quero sair dessa vida desgraçada. Tô dando o meu jeito, entende?

__Seu jeito?… Alguma safadeza, claro!

__Eu quero voltar a viver como antes! Você não?

__Claro que quero. É só o que eu quero. Também não gosto dessa porcaria aqui, essa casa horrorosa, nesse bairro ridículo com pessoas ridículas!… Não gosto de trabalhar como motorista de Van, de pegar ônibus cheio, de comer arroz, feijão e bife todo dia… Mas eu quero sair dessa lama sem fazer algo que vai me ferrar ainda mais, Rodrigo. – ele suspira e senta ao lado do irmão – Sei que tá metido em alguma coisa errada…

__Coisa errada? Tipo o quê? – pergunta Rodrigo.

__Não foi comissão nenhuma do hotel, não é? Você é só o guardador de carros, irmão… E pelo jeito foi muita grana que conseguiu! Quem daria tanto dinheiro prá um guardador?…

__Meu Deus do céu! – exclama Guilherme – Desde quando você ficou assim cheio de escrúpulos, garoto?! Aliás, você tá muito esquisito ultimamente, Ricardo!…

__O que importa de onde veio o dinheiro? – diz Elena – O importante é que ele veio! E vai nos ajudar a sair do buraco!

__É uma boa quantia, Ricardo… – diz Isadora enquanto serve uma xícara de café para ele – Podemos te dar uma parte.

__De onde saiu esse dinheiro, Ricardo? De verdade? Pode dizer, eu não vou criticar nem dar sermão… Mas se for alguma coisa ilegal, é bom saber que pode se dar mal. Todos nós podemos.

Rodrigo dá uma risada no que é acompanhado pelos pais.

__”Se for alguma coisa ilegal”! Ouviu o que disse, Ricardo? De que maneira acha que sairemos dessa miséria se não for algo ilegal?… Como acha que vamos voltar a ser os Toledo Rivera de dez anos atrás se não for por algum meio ilícito?…

__Foi assim que acabamos aqui! Foi por causa das falcatruas do papai que acabamos nessa situação ridícula, Rodrigo!

__Eu não quero ficar pobre pro resto da vida! – grita Rodrigo descontrolado.

__Eu também não!

__Tá certo, a cupa é toda minha! – fala Guilherme – Eu fiz muita burrada e acabei destruindo nosso patrimônio! Mas acho que agora chega, já paguei meus pecados! Eu não posso fazer mais nada prá mudar essa situação, mas vocês podem, meninos. E não importa se é legal ou ilegal, se é honesto ou não…! O importante é sairmos desse poço sem fundo em que estamos!

__Meu Deus… Vocês apoiam essas coisas?… – diz Ricardo, mas na verdade não está nem um pouco surpreso ou chocado…

__Apoiamos sim. – fala Elena – Apoiamos qualquer idéia que nos tire dessa situação! Você também podia fazer a sua parte, Ricardo. Se seguisse o meu conselho e arranjasse uma coroa milionária…

__Pode parar! Sem chance, dona Elena! – ele levanta e caminha até a porta da cozinha – Seja lá o que for, eu tô fora! Não vou me sujar por causa de…

__Eu quase fui assaltado no estacionamento do hotel. – começa Rodrigo.

__Não quero saber, tô fora.

__E entrei num acordo com o marginal.

__O quê?…

29 de mar. de 2010

Capítulo 11

Não é só Amélia que está cheia de problemas com a família. A família de Ricardo também é complicada… Ele tem esperanças de um dia voltar a ser rico, mas não faz muita força para que isso aconteça… A verdade é que, e todo mundo sabe disso, Ricardo não é do tipo “batalhador”, que corre atrás do prejuízo quando as coisas ficam pretas. Mas ele deseja ardentemente que sua vida volte ao normal… Mesmo não fazendo nada de concreto para que isso aconteça.

Enquanto isso, Guilherme Rivera tenta por em prática suas idéias mirabolantes para retornar a alta sociedade. Elena por sua vez, também dá suas voltas, vendendo as roupas de marca e os móveis valiosos que restaram da sua antiga vida. Por enquanto, eles têm se dado bem, estão mantendo a casa com esses “ganhos”…

Rodrigo tem um emprego tão chinfrin quanto o do irmão. Como guardador de carros num hotel de luxo da Zona Sul, ele ganha mais ou menos, dá para ajudar a botar comida na mesa. Mas de repente, alguma coisa mudou no comportamento dele…

__O que tá acontecendo nessa casa que eu não tô sabendo? – diz Ricardo assim que entra na cozinha.

Elena e Guilherme estão sorridentes enquanto Rodrigo prepara o café para a esposa. Que estranho isso…! Rodrigo nunca foi de certas gentilezas…

__Oi, filho! Vem tomar café com a gente! – fala Elena toda alegre.

__Que tá rolando, hein?… – Ricardo senta ao lado da mãe – Qual é a jogada?

__Você não vai acreditar…

__Não tem jogada nenhuma, Ricardo. – corta Guilherme – Seu irmão ganhou uma boa comissão no hotel…

__Mesmo?… – ele olha para o irmão desconfiado – Uma comissão? Por guardar o carro de quem? Do Papa?

__Eu tenho bons contatos por lá. Coisa que você não conseguiu até hoje nesse seu “emprego”, Ricardo!

__Isso não tá me cheirando bem… Aí tem coisa! O que foi que você aprontou, Rodrigo?

__Eu? Eu não fiz nada! Ou melhor, fiz o meu trabalho direito e fui recompensado.

__Qual foi a enrascada em que se meteu dessa vez, Rodrigo?

21 de mar. de 2010

Continuação do capítulo 10

Amélia não sabe se é corajosa ou burra. É preciso muita coragem para subir o morro atrá de um marginal como o Beto Bala! Mas também é muita burrice fazer isso… Então ela é uma burra corajosa. Ou uma corajosa burra. Não importa. O que importa é que ela está aqui, fingindo tranquilidade quando por dentro está uma pilha de nervos… Todo esse sufoco é por causa de Camila. Menina desmiolada! Onde já se viu, deixar o conforto da casa para viver num cubículo com um marginal como esse sujeito?!

Amélia é recebida por um dos comparsas de Beto.

__Qual é? – pergunta o sujeito como se rosnasse.

__Quero falar com o Beto.

__Quem quer falar?

__Amélia. Irmã da Camila.

__Dá um tempo aê…

Os minutos parecem horas…! Então Beto abre a porta do barraco e sorri ao vê-la.

__E aí, cunhadinha? Veio visitar a gente?

__Quero falar com a Camila. Pode ser? – ela fala com firmeza apesar de estar apavorada e confusa…

__Acho que ela não quer falar contigo, não…

__Pode chamar a Camila?

__Aí, cunhada, vou te mandar um papo reto: a Camilinha não tá a fim de falar contigo não.

__E eu vou te mandar outro papo reto: chama a Camila agora! Eu quero falar com ela, Beto!

__Qual é, Amélia! A gente tá numa boa, não te mete na nossa vida não! Volta pro teu castelo e deixa a gente em paz! – ele fala grosso com o dedo apontado para a cara dela…

__Vai chamar a Camila ou prefere que eu volte aqui com a cavalaria?

__Olha só, garota… Toma teu rumo agora antes que eu me aborreça contigo!…

__Vai fazer o quê? Mandar me matar? Deixa de palhaçada que eu não tenho medo de você, Beto! – ela grita mais para causar impacto do que qualquer outra coisa…

Beto a encara. Ele é alto, corpo magricelo, cabelos compridos e descoloridos, cheio de tatuagens nos braços e peito… Uma figura assustadora. Então ele sorri mostrando os dentes tortos.

__Tu não é fraca não, hein…! Tem que ter muita atitude prá subir aqui e me encarar, mulher!

__Chama a Camila. Eu não quero papo contigo, cara. Minha conversa é com a Camila.

__Tá legal… Eu vou chamar. Mas acho que ela não vai querer te ver não…

Depois de alguns instantes, Camila aparece. Está abatida, com jeito de quem não dorme nem come direito…

__O que você quer, Amélia?

__Quero que volte comigo prá casa agora.

__Não. Eu tô bem, a gente táse acertando… Não quero voltar.

__Se acertando… Como assim?

__O Beto tá com uma grana aí… A nossa vida tá melhorando, Amélia. Vai dar até prá comprar uma casinha, um carro talvez… Botar o nosso filho numa escola particular…

__Nossa! Mas que grana é essa, meu Deus?!? Deve ser alguma herança de um parente distante, acertei?… Porque de trabalho honesto é que não é! Como surgiu esse dinheiro, Camila? De onde? – Amélia até se arrisca a entrar no quintal minúsculo para falar melhor com a irmã.

__Quer parar de sacanear o Beto? Puxa vida, ele tá se esforçando por mim!

__Se esforçando?… Como é esse “esforço”, Camila? Tá trabalhando, arranjou um trabalho de verdade?… Ou será que esse “esforço” veio de algum “ganho”?

__Para com isso, Amélia! Assim tá ofendendo o meu marido! Ele tá lutando prá me dar uma vida legal, sabia? – Camila diz isso sem um pingo de convicção…

__Seu marido…? – ela está indignada – Meu Deus do céu, você tá mais cega do que eu pensei! Pior: tá burra e louca! Por que é burrice e loucura vir morar num lugar como esse com um marginal chinfrin como esse aí!

__Eu não vou e acabou! Pode falar prá mamãe e pro papai que eu não vou voltar! – Camila cruza os braços e faz uma careta como uma criança mimada.

__O papai e a Rosa nem sabem que eu tô aqui. Vim por que quis. Aliás, achei que você ia cair na real e voltar comigo prá casa. Mas, pelo jeito esse cara já fez a tua cabeça.

__Eu gosto dele, tá! E ele gosta de mim também! Mas você não sabe o que é isso, não é, Amélia? Não sabe o que é amar alguém de verdade porque nunca teve ninguém que se interessasse por você! Você não entende nada de amor! – agora Camila mostra toda a sua revolta…

__Não entendo esse tipo de amor que você fala, Camila. Não entendo mesmo. Se você quer ficar com esse verme, se acha que esse é o tipo de vida que vai te fazer feliz, então pode ficar. Mas vai ter que segurar a barra numa boa, sem pedir arrego…! Eu não vou mais te procurar, Camila. Mas você também não vai mais procurar a gente! esque ce que tem pai, mãe, irmãs… Segue tua vida sozinha daqui prá frente.

__Você tá por fora, Amélia!… O Beto vai comprar uma cas linda prá mim, já me deu um monte de coisa boa…! a minha vida tá ficando ótima! Agora eu tenho grana prá gastar com o que quiser!

__Não tô falando de grana, minha irmã… Tá trocando o certo pelo duvidoso. Esse cara tá encrencado e cedo ou tarde ele vai cair. E vai levar pro chão quem estiver junto dele. 

 

 

16 de mar. de 2010

Continuação do capítulo 1

Rosa começa a gritar como sempre faz quando as coisas não saem do jeito que quer. Faz isso para chamar a atenção do marido que, é claro, sempre a defende. Bobagem. Amélia não está nem aí para os chiliques da madrasta. Quem devia estar à frente da pensão e cuidando dos netos era Rosa! Amélia tomou um banho rápido e saiu para o trabalho. Não quer mais se atrasar e ser chamada a atenção pelo chefe.

Seu emprego na H Siegel não é lá essas coisas, mas ela precisa botar dinheiro em casa. Se ela não trabalhar feito uma mula de segunda a sábado na joalheria e fazer uns biscates vendendo bijouterias, quem vai pagar a conta do aluguel, da água, colocar comida na mesa?… Ninguém. Seu pai se aposentou depois de um acidente e não pode mais trabalhar com seu barco de pesca.

Sua “adorável” madrasta Rosa atormentou tanto a cabeça de Antonio para abrir uma pensão que ele gastou todas as suas economias com o negócio e agora ela nem chega perto da cozinha… Suas meias-irmãs Camila e Marisa também não têm muito gosto pelo trabalho. Elas só querem namorar e curtir a vida! Cuidar dos filhos nem pensar!…

Sobrou para Amélia segurar esse pepino. E é o que ela tem feito esses anos todos, desde que era adolescente… Tanto tempo assim? Já está com trinta e cinco anos e viu o tempo passar tão rápido diante de seus olhos… E nesse tempo todo ela viveu a vida através da vida dos outros. Agora, neste momento, dentro do ônibus lotado, ela pensa nisso. Não consegue lembrar-se dos seus sonhos, dos seus planos, dos seus desejos… Não consegue lembrar-se da sua vida. Isso é patético! Não, é triste, deprimente.

Mas Amélia não se deixa abater. Não deixa o baixo astral atrapalhar a sua vida, procura sempre ver o lado bom das coisas. Se não ajudasse sua família quem ajudaria? Pois é. ela teve de fazer uma escolha: a sua vida ou a deles. Escolheu a deles. Se foi uma boa escolha, ela não sabe. Mas foi a mais correta, isso ela tem certeza.

Ela desce do ônibus toda amassada, despenteada e com um mau humor horroroso. Hoje o dia está pelo avesso para Amélia! Volta e meia ela fica assim, pensando no “se” da sua vida… Se tivesse terminado a faculdade de Artes, se tivesse se especializado em designer de jóias, se tivesse arranjado um emprego na Gema Mineral, se tivesse comprado seu apartamentinho, se tivesse se apaixonado loucamente por um homem maravilhoso, se tivesse tido filhos…

Nada disso aconteceu. Ficou só no “se”. Então bate uma angústia, um desassossego tão grande…! E ela pensa: “meu Deus, eu não sou ninguém!”… Não pode se deixar tomar por esses pensamentos! Por isso ela respira fundo, se empertiga toda e abre um sorriso antes de entrar na joalheria.

__Bom dia prá todo mundo! – ela diz – Bom dia, chefe!

__Bom dia, Amélia! Gostei de ver… Chegando na hora! – fala Osvaldo.

__Graças a Deus! Hoje eu consegui me livrar da senzala que é aquela pensão!

Amélia entra na copa, põe o avental e vai preparar o café. Esse é o seu trabalho: servir café e outras coisinhas para os clientes da joalheria. O irônico disso tudo é que ela sempre sonhou trabalhar na H Siegel. Mas como designer não como a “garota do café”… Tudo bem, um dia quem sabe, ela não realiza  seu sonho?… Por enquanto ela fica na copa mesmo. O interfone toca. É o chefe.

__Pode trazer um café e um suco de laranja?

__É prá já, chefe!

Capítulo 1

Fazer escolhas. Às vezes as pessoas fazem escolhas que se refletem para sempre em suas vidas. Foi assim com Amélia. Ela fez uma escolha que se reflete até hoje. Na verdade não foi uma escolha sua. As circunstâncias a levaram a seguir por esse caminho. Um caminho sem volta… Talvez sua vida fosse diferente agora se tivesse feito outras escolhas. As suas escolhas.

De vez em quando ela pensa nisso. Como seria sua vida se tivesse optado seguir por um caminho diferente? Seria feliz? Quem sabe… Bem, a questão é: ela é feliz agora, com essa vida que escolheu? É complicado responder. A resposta pode ser muito dolorosa. Então ela sacode a cabeça e se força a pensar em outras coisas.

__Amélia, em quê planeta você tá?!

Ela estremece com a voz da madrasta. Por um instante, ela parou no tempo. Esqueceu da louça na pia e de dar almoço aos sobrinhos…

__O quê…?

__Tá aluada, menina?!? Olha só quanta louça prá lavar! E as crianças ainda não almoçaram, Amélia!

__Eu sei, eu sei! Quer ficar calma, Rosa? Eu ponho o almoço deles rapidinho! E deixa a louça por minha conta, valeu?

__Deus me livre! De vez em quando você entra nesse transe! Parece maluca!

__Mas eu sou maluca! – ela grita jogando o pano de prato no chão – Só uma pessoa completamente louca prá te aturar, Rosa! Só sendo muito louca prá agüentar as safadezas das tuas filhas numa boa!

__Olha a mal criação comigo, sua desaforada!

__E essa bendita pensão que nem minha não é e eu tenho que dar conta? Não tem que ser doida varrida prá aturar tudo isso?!?

__Deus me livre! Tá de ovo virado hoje, hein! Quer saber? Eu vou prá minha ginástica que é melhor!

__Esperaí, madame! Quem vai levar as crianças prá escola?

__Você, como sempre!

__Não meeesmo! Eu não quero chegar atrasada de novo na loja! Pode tratar de acordar uma das suas “princesas”´prá levar as crianças prá escola! – Amélia tira o avental e joga sobre a mesa – Eu vou tomar um banho e ir pro trabalho!

__E a pensão? Quem vai cuidar da pensão?

__Não sei. Você, o papai ou uma das “belas adormecidas”! Eu vou trabalhar. Tchau prá você, Rosa!