Já está na H Siegel há dois anos e tem sido um bom emprego até agora. Não é o ideal, o emprego dos seus sonhos, mas é um emprego. Ela está segura aqui, apesar de ganhar pouco. Precisa de um emprego estável para sustentar sua família. Amélia queria trabalhar fazendo o que gosta, mas infelizmente isso não é mais possível. O mais próximo que ela conseguiu chegar de seu sonho foi servindo café na maior joalheria do país... Mas tudo bem. Ela agüenta. Ela sempre agüentou. É a vida, não pode reclamar.
Depois de lavar a louça, arrumar a cozinha e preparar o café, ela finalmente se acalma e relaxa. Seu dia começou ruim e ficou péssimo depois do incidente com o motorista, mas agora já está tudo legal de novo. De certa forma ela está aliviada em saber que ele não é um cliente importante e por conta disso seu emprego não está ameaçado... E agora no fim do expediente Amélia está tranqüila, muito calma. Isso é bom?... Para uma pessoa de temperamento explosivo como ela, isso é ótimo. Significa que nada mais a aborrece hoje...
__E aí? Você vai ao meu show, não vai? – pergunta Clarice enquanto ajuda Amélia a fechar a copa.
__Ih, não vai dar! Eu tô muito cansada, Clarice. Quero cama e mais nada!
__Amélia, dá um tempo! Você precisa se distrair, relaxar! Eu queria tanto que fosse me ver cantar...!
__Fica prá próxima, amiga. – ela caminha pelo corredor apressada.
__Foi o que você disse mês passado! Qual é! Desgruda um pouco da família, garota!
__Não sou eu que não desgrudo da família. É a família que não desgruda de mim! – ela diz se despedindo rapidamente das vendedoras e do segurança antes de sair da loja – Tchauzinho, Clarice! A gente se vê amanhã!
E assim que ela sai, dá de cara com quem...? Isso mesmo, o motorista novo. Amélia prefere ignorar o cara, finge que não o vê. É meio difícil fingir que não vê um sujeito grande como esse...! Ele deve ter um metro e noventa de altura no mínimo! E ignorar também não tem como... O novo motorista é bem atraente! Amélia passa por ele batida, de cara amarrada. Mas dá para ver o leve sorriso dele... Deboche? Talvez. Ela não liga.
__Oi, Ricardo! – grita Clarice toda assanhada – Já vai?
Ricardo – o nome dele é esse – olha para trás e sorri largamente.
__Oi, Clarice! Pois é... Eu já vou.
__Então? Tá gostando do trabalho?
__É, tá gostando do trabalho, "doutor motorista"? – Amélia não resiste!
__Tanto quanto a senhora, "madame"! – ele se aproxima agora muito sério.
__O doutor comprou quantos colares de diamantes? Sim, porque com essa pose toda que chegou aqui só pode ter comprado muitas jóias...! – ela o encara um tanto irritada com o olhar dele...
__Amélia, dá um tempo! – repreende Clarice puxando-a pelo braço.
__Não, tudo bem, Clarice. – Ricardo cruza os braços e franze a testa chegando bem pertinho de Amélia – sabe que você agora me deixou na dúvida...? Não sei mais quantas jóias comprei!... Foram dez colares de rubis? Vinte pulseiras de esmeraldas? Não sei, sinceramente não sei... E a madame, levou o quê além da bandeja de café?
__Olha aqui, cara... – ela se empertiga toda e põe o dedo em riste – Vê se fica na tua que eu fico na minha, tá certo?
__Ficar na minha?! Mas foi a madame quem começou essa brincadeira!...
__Madame é a...
__Amélia! – grita Clarice praticamente arrastando a amiga para longe.
__Teu nome é Amélia? Muito apropriado! – ele grita rindo antes de subir na moto.
__Vai pro inferno, seu cretino!