16 de mar. de 2010

Continuação do capítulo 1

Rosa começa a gritar como sempre faz quando as coisas não saem do jeito que quer. Faz isso para chamar a atenção do marido que, é claro, sempre a defende. Bobagem. Amélia não está nem aí para os chiliques da madrasta. Quem devia estar à frente da pensão e cuidando dos netos era Rosa! Amélia tomou um banho rápido e saiu para o trabalho. Não quer mais se atrasar e ser chamada a atenção pelo chefe.

Seu emprego na H Siegel não é lá essas coisas, mas ela precisa botar dinheiro em casa. Se ela não trabalhar feito uma mula de segunda a sábado na joalheria e fazer uns biscates vendendo bijouterias, quem vai pagar a conta do aluguel, da água, colocar comida na mesa?… Ninguém. Seu pai se aposentou depois de um acidente e não pode mais trabalhar com seu barco de pesca.

Sua “adorável” madrasta Rosa atormentou tanto a cabeça de Antonio para abrir uma pensão que ele gastou todas as suas economias com o negócio e agora ela nem chega perto da cozinha… Suas meias-irmãs Camila e Marisa também não têm muito gosto pelo trabalho. Elas só querem namorar e curtir a vida! Cuidar dos filhos nem pensar!…

Sobrou para Amélia segurar esse pepino. E é o que ela tem feito esses anos todos, desde que era adolescente… Tanto tempo assim? Já está com trinta e cinco anos e viu o tempo passar tão rápido diante de seus olhos… E nesse tempo todo ela viveu a vida através da vida dos outros. Agora, neste momento, dentro do ônibus lotado, ela pensa nisso. Não consegue lembrar-se dos seus sonhos, dos seus planos, dos seus desejos… Não consegue lembrar-se da sua vida. Isso é patético! Não, é triste, deprimente.

Mas Amélia não se deixa abater. Não deixa o baixo astral atrapalhar a sua vida, procura sempre ver o lado bom das coisas. Se não ajudasse sua família quem ajudaria? Pois é. ela teve de fazer uma escolha: a sua vida ou a deles. Escolheu a deles. Se foi uma boa escolha, ela não sabe. Mas foi a mais correta, isso ela tem certeza.

Ela desce do ônibus toda amassada, despenteada e com um mau humor horroroso. Hoje o dia está pelo avesso para Amélia! Volta e meia ela fica assim, pensando no “se” da sua vida… Se tivesse terminado a faculdade de Artes, se tivesse se especializado em designer de jóias, se tivesse arranjado um emprego na Gema Mineral, se tivesse comprado seu apartamentinho, se tivesse se apaixonado loucamente por um homem maravilhoso, se tivesse tido filhos…

Nada disso aconteceu. Ficou só no “se”. Então bate uma angústia, um desassossego tão grande…! E ela pensa: “meu Deus, eu não sou ninguém!”… Não pode se deixar tomar por esses pensamentos! Por isso ela respira fundo, se empertiga toda e abre um sorriso antes de entrar na joalheria.

__Bom dia prá todo mundo! – ela diz – Bom dia, chefe!

__Bom dia, Amélia! Gostei de ver… Chegando na hora! – fala Osvaldo.

__Graças a Deus! Hoje eu consegui me livrar da senzala que é aquela pensão!

Amélia entra na copa, põe o avental e vai preparar o café. Esse é o seu trabalho: servir café e outras coisinhas para os clientes da joalheria. O irônico disso tudo é que ela sempre sonhou trabalhar na H Siegel. Mas como designer não como a “garota do café”… Tudo bem, um dia quem sabe, ela não realiza  seu sonho?… Por enquanto ela fica na copa mesmo. O interfone toca. É o chefe.

__Pode trazer um café e um suco de laranja?

__É prá já, chefe!